sexta-feira, 30 de novembro de 2012

 
 
 
 ALDINHA
 
Lembro-me dela como se fosse hoje. Era uma menina grande para a idade, negra como o carvão, com uns brincos de ouro daqueles que me faziam lembrar as minhas primas da aldeia do meu avô, que furavam as orelhas em bebés e depois punham umas linhas pretas nos buraquinhos, para que o furo não fechasse... depois, punham uns brincos de ouro, antigos e valiosos, que ficavam para a vida toda (...só furei as orelhas com 11 anos, lembro-me que queria muito, mas não gostava nada daquela ideia da linha preta, isso não, não queria com veemência!); a menina tinha uns olhos muito grandes, muito pretos, o cabelo era cheio daquelas trancinhas africanas, muito juntinhas e espetadas em todas as direcções. Tinha umas mãos muito grandes, com palmas esbranquiçadas que contrastavam com a negrura da pele em todos os outros pontos cardeais do seu corpo; esta menina desenhava muito bem e, teimosamente, as suas representações da figura humana eram sempre maravilhosas figuras femininas, loiras, de olhos muito claros, com uns cabelos muito brilhantes e compridos. Lembro-me que lhes pintava sempre as unhas de cores garridas e aquelas, eram sempre compridas. Às vezes, dizia-lhe que ela não era assim e que era importante tentar desenhar-se como era, que ela era linda, da cor do chocolate que eu adoro, mas a "Aldinha" (chamemos-lhe assim...) nunca desistiu daquela representação da beleza feminina. Era determinada, suave, mas decidida e sabia muito bem o que achava bonito. Por isso, contrariava-me sempre!
Um dia, já no final do primeiro período, tive o prazer de conhecer a mãe desta menina. Lembro-me que apareceu sem avisar, à hora do almoço e que eu a recebi com um misto de surpresa e curiosidade, pois estava tudo bem com a menina, não tinha havido um aviso, um recado, nada que me fizesse estar à espera de uma mãe que, julgava eu, era tão ausente! Recordo a conversa que tive com a senhora como uma lição de vida que ainda hoje, em variadíssimas situações relato e dou como exemplo. Era uma mulher enorme (a filha, grande, herdara-lhe a altura...), com um penteado africano muito típico, com um ar de trabalho, de vida dura, com gestos rápidos e um sentido prático que me desarmou. -"Não poderia nunca deixar de vir conhecer a professora da minha filha" - disse-me com ênfase, referindo que há muito desejava fazê-lo, simplesmente a vida dura que tinha a impedia de já o ter feito há mais tempo. Sei que a conversa durou algum tempo, entre considerações sobre a menina, sobre a escola e sobre a vida e foi sobre esta que me deu uma lição enormíssima: desde relatos sobre o seu dia-a-dia, passando por opiniões fortes e seguras que mostrava ter sobre as coisas, até à descrição dos 10 partos, do nascimento dos 10 filhos, todos em casa, indo logo trabalhar a seguir, tendo que trabalhar a seguir, até à nostalgia pelas ausências do marido... enfim, foi para mim uma lição de vida que senti como muito forte no momento e que nunca mais esqueci.
Hoje, em jeito de "rewind", comparo esta mulher maravilhosa, linda à sua maneira e cheia, a transbordar, de coisas boas e bonitas, com muitas mães "Barbies" que nos "passam" pelos grupos... tão lindas (será?), tão arranjadas, com ares tão importantes, tão supostamente sabedoras de tudo e penso que não sabem nada, que não emanam para fora nada do que é mais importante!... passam por nós e não "ficam" para sempre como esta mãe ficou.
Nunca mais vi a Aldinha nem a mãe. Não faço ideia do rumo que seguiram, presumo que a menina continue simples e encantadora como era, detentora daquilo que é mais importante para a vida: a preocupação e dedicação de sua mãe, a ponto de pôr a sua vida escolar, numa prioridade de agendamento muito importante, porque a considera, porque respeita, porque quer ser par!
E sabem? Lembro-me que a mãe tinha as unhas das mãos pintadas de cor muito garrida, embora o verniz estivesse gasto e a lascar. Quem sabe se, nas princesas que a Aldinha desenhava, não estava um pouquinho da sua mãe? Eu acredito que sim!


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

 
 
 
MUSTELA
 
Na minha sala de Jardim-de-Infância, que será sempre uma fonte inesgotável de inspiração, mesmo que não esteja à espera, ou a pensar nisso, há uma menina que esteve alguns dias privada da presença da mãe, estando entregue aos cuidados do pai e outros familiares que partilharam entre si as idas e vindas da escola e muito bem! Notou-se logo no comportamento da criança a ausência da mãe! Mais sensível, "choramingosa", "queixinhas" dos outros o tempo todo, havia ali qualquer coisa que passava quase despercebida, mas que se notava de diferente. Isto fez-me pensar num sem número de coisas: na forma como sempre vivi a maternidade, na forma como os outros (neste caso, as outras) a vivem), no papel do pai na estrutura familiar, na relação com outros familiares que nos aumentam o leque de afetos, no toque maternal que só a mãe pode dar.
Enalteço aqui todos os pais do mundo e todos aqueles que, sobretudo, vivem as tarefas referentes aos filhos, assumindo-as como suas, estando presentes nas suas vidas, sendo para eles uma referência de amor, presença, contacto, brincadeira... Enalteço aqui o meu próprio marido, pai dos meus três filhos, que foi sempre e é-o todos os dias, um super pai e companheiro, reduto mais sagrado da minha intimidade e amor!
 Hoje em dia, atrever-me-ia a dizer que quase todos os pais são assim! Aquela ideia, muito "estado novo", de ausência afetiva do pai que, simplesmente assegurava a vertente económica da família, mas que da vida dos filhos pouco sabia, penso que está ultrapassada na maioria dos casos, e ainda bem! Vejo isso nas escolas, quando vejo cada vez mais pais a assumir tantas coisas na vida dos filhos, vejo isso nas conversas com as mães, que assumem os maridos/companheiros como parceiros absolutos nesta história vitalícia de educar, vejo isso nos próprios pais que vão, participam, perguntam, se interessam. Salvas as devidas e sempre presentes exeções, é cada vez mais assim. Nunca me tinha acontecido, como neste ano, ter três, ou quatro crianças cujas mães não conheço, mas sim os pais... é assim, os paradigmas a que estávamos habituados vão mudando, a vida das pessoas e as suas formas de se organizarem também, e nós cá estamos para irmos "processando" todas estas informações, como um longo e constante "processador de texto", desta vez com caracteres vivos e palpáveis, à nossa frente!
Ainda bem que assim é e ainda bem que, mesmo quando não há este contacto tão assíduo com a escola (apesar de tudo, ainda é assegurado, na maioria dos casos, pelas mães) os pais são presentes e ativos na vida dos filhos e aqui "encaixo" todos e todos e todos aqueles casos que conheço de amigos, conhecidos, familiares. O importante será o "encaixe" que se faz das vidas uns dos outros nas vidas de cada um, como um puzzle vivo, nas nossas casas. Assim, dará sempre certo, ou pelo menos... quase sempre!
No entanto... ai, ai, que me desculpem todos os super pais, maridos, companheiros... no entanto, no entanto... aquele toque, aquela palavra final, aquele adivinhar dos pensamentos, aquele "ver no escuro" (como a coruja, do post anterior), aquele cheirinho a MUSTELA que perdurará todo o dia, esse, todos esses, penso que serão exclusivos da mãe!...E aquela menina do início do post dizia-me hoje: -"Olha Paula, a minha mãe hoje pôs-me creme, não estou cheirosa?"

terça-feira, 27 de novembro de 2012

 
 
MÃES CORUJAS
 
É muito comum em Jardim-de-Infância trabalhar-se o tema da família e compreende-se porquê. Trata-se de perceber as relações familiares simples, as nossas origens, o que está "antes" de nós e "antes" dos nossos Pais, como se imaginássemos uma escadinha para trás com vários degraus (aliás, às vezes utilizo esta imagem da escadinha para explorar esta genealogia simples com o grupo). Isto ajuda a estruturar o pensamento, a perceber quem somos e de onde vimos.  
A família é a nossa célula mais nuclear, a nossa matriz mais importante, com a qual ficamos marcados, se não para sempre, pelo menos durante aquela fase da vida em que ainda não temos autonomia para decidir sozinhos e precisamos de um "fio condutor".
Já adultos, teremos a liberdade de "filtrar" o que não queremos e aproveitar, "sorver" o que é bom, o que podemos aproveitar para nos caracterizar um bocadinho, fazendo da nossa matriz anterior, um pouquinho da nossa própria identidade adulta.
 Então, será importantíssimo perceber o "barro" de onde vem a criança, contextualizá-la num cenário de relações inter-pessoais que podem explicar tanto acerca de si. Este tema da família é absolutamente transversal e pode ser abordado aquando de uma série de oportunidades, situações, temáticas, assuntos, conceitos! Compreendo e contextualizo muito melhor uma criança se conhecer a sua estrutura familiar e posso partilhar que tenho tido imensos exemplos de famílias nada ditas "tradicionais", em que se respira amor, matriz, valores e eficácia afetiva, daquelas eficácias que se reproduzem para outros com quem depois nos relacionamos... é como uma teia que vai ficando com muitos fios, vindos todos da mesma aranha!
É interesante "receber" com os grupos de meninos e meninas das nossas escolas, todas as formas novas e diferentes que há de famílias. É interessante ver como essas formas novas, "povoam" a nossa sociedade, interpelando-nos a uma aceitação que deve ser natural e não forçada. É interessante observar que em todas as formas de se dizer FAMÍLIA, quase nunca (quase, quase...) se perde a ideia de núcleo, de "ninho", de referência afetiva e social. O peso de uma MÃE pode ser dado a uma AVÓ, o encanto de um PAI pode ser transferido para um AVÔ, "COMPANHEIRO DA MÃE", PADRINHO, ou outra pessoa que naquela época, naquela vez, com aquelas pessoas, fez as "vezes de" e fê-lo eficazmente! É "ninho" na mesma, "porto seguro", sempre...
Não interessará a forma, interessará sim, a eficácia pedagógica e afetiva daquele conjunto de pessoas a quem se chama FAMÍLIA.
Às vezes, a família muda... às vezes, a nossa maneira de ver o mundo muda e, empurrados, ou não, conseguimos (ou queremos) fugir da teia inicial que foi sempre tão importante! Às vezes, vamos nós criar uma outra família, distante da primeira, daquela que nos gerou; outras vezes será próxima, quase parecida porque não queremos libertar-nos daquela matriz tão importante! 
Quereria muito que em qualquer família, houvesse sempre "olhos de amor" que achassem sempre os seus filhos "os mais bonitos do mundo", porque seus e únicos... um pouco como a coruja da fábula de La Fontaine, que pediu à águia para olhar pelos seus filhos, "os mais lindos, de bicos mais perfeitos, no ninho mais maravilhoso". Penso que haverá sempre "mães" ("titulares" biológicas do "cargo", ou não...) que olharão em todas as direções, como a coruja, vendo no escuro, aquilo que os outros não vêm com o intuito de proteger o seu filho! E por isto, ainda bem!
 
P.S- Obrigado amiga Kuláudia pela imagem ternurenta das corujas que partilhei do teu mural e que me serviram de "click" inspirador...


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

 
 
 
 
 
 
Edelweiss
 
Hoje tive um dia particularmente cheio de coisas boas: afetos, família toda reunida, sobrinhos e filhos (já são tantos quando se juntam!!), olhinhos a brilhar por todo o lado, e o dom da vida, celebrado mais uma vez, desta vez sob a forma de um aniversário que é só mais uma das infinitas maneiras que existem de agradecer por estarmos vivos! No final deste dia saboroso, tive ainda um toque de "canela" a adoçá-lo: uma ida ao cinema, que é um programa que adoro! Embora os bilhetes de cinema estejam exageradamente caros e existam cada vez mais formas de ver tudo o que vai estreando na tela, não há o que substitua uma ida ao cinema para absorver o escurinho, o som, a emoção, o "mergulho" que damos naquela história que nos preenche durante aqueles minutos.
Fui ver o "Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Bordéus", um filme de João Correa e Francisco Manso. Confesso que só tinha ouvido falar neste cônsul, há cerca de 2 anos, creio, num programa de televisão em que se votava para eleger o melhor português de sempre... Dou cada vez menos importância à televisão, ou melhor, sou cada vez mais seletiva com aquilo que gosto de ver, mas lembro-me deste programa, onde se falava de uma série de personalidades da nossa história, mais remota, ou mais recente, e depois se elegia, por votação, aquela personalidade "eleita" pelo "público". Fiz logo a ligação direta para o "Schindler português", como aliás penso que é comum a quase todos os que viram também o filme "A lista de Schindler" (Steven Spielberg, 1993). 
Este tema da segunda guerra mundial é-me particularmente caro, não sei se por ter uma carga humana, dramática, verídica, muito grande, como se também por ter estado em Auschwitz, por ter passado por aquele portão de ferro, com letras também de ferro, que dizem "Arbeit macht frei" ( "o trabalho liberta"), por ter visto tudo aquilo, do alto dos meus 18, 19 anos... Lembro-me também de um outro filme, desta temática, que vi há muitos anos ("A escolha de Sofia", de Alan J. Pakula, 1982), do qual me lembro até hoje e através do qual me apaixonei para todo o sempre pelas interpretações da Meryl Streep... Enfim, pedacinhos disto e daquilo que me fazem ser sensível a este tema. E hoje lá esteve ele, retratado pela eloquência de um cônsul português à época, que contra tudo e contra todos resolveu agir pela sua consciência, obedecendo aos seus códigos mais sagrados de conduta e não se desviando daquilo que o faria sentir-se inteiro, completo e equilibrado: a ajuda genuína aos outros, de forma gratuita, forte e verdadeira. Fiquei outra vez enlevada pela história e apeteceu-me saber os nomes de todos e todas os muitos anónimos que também ajudaram, salvaram, milhares e milhares de pessoas. Acredito que nos nossos intímos, as sensações de orgulho e admiração incluam também, todos esses e essas (Irene Sandler, Maximiliano Kolbe, etc, etc, etc...).
Aqueles meus "neurónios saltitantes", fizeram logo uma ligação direta para uma flor, a EDELWEISS... Esta flor é típica da Áustria e Suíça e nasce nas montanhas rochosas dos Alpes, entre pedras frias e superfícies agrestes de difícil acesso. Tem raízes muito fortes e profundas, que lhe permitem resistir a temperaturas muito violentas. Nada do senso comum faria prever que uma criatura tão linda nascesse num sítio tão difícil, mas nasce e é, inclusivamente, o símbolo de um desses Países. Viram o filme, "A Música no Coração"?... A família Von Trapp foge dos nazis, pelos Alpes, ao som desta música (Edelweiss), que faz parte dos nossos códigos musicais!
Que bom poder ver pintas de cor no meio do negro! Que bom testemunhar a vida de ternura, afeto e verdade, nas suas formas mais genuínas, no meio da miséria humana! Que bom, que bom...
Bons cheirinhos!!!!
 


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

 
 
 
BOM-DIA!
 
Antes de entrar, de manhã, gosto muito de ir beber café, não só porque o meu organismo está dependente da cafeína e este café da manhã completa o meu despertar TOTAL, funcionando como o último "apito" do despertador, como também porque gosto daquele bocadinho de tempo em que estou sozinha, ou acompanhada e dou dois dedos de conversa, descontraio, rio um bocadinho e me preparo para iniciar um novo dia de trabalho. Pelo tempo de distância que levo a chegar ao destino, aliado a uma conjugação de horários dos miúdos cá de casa, isso tem sido possível até hoje. Parece que se não consigo este pedaço de "preguiça", não começo bem o dia...
Hoje tive oportunidade de estar sozinha nesse bocadinho de tempo e, como bebi café em frente à minha escola, detive-me a observar, à distância, a azáfama da entrega das crianças. Foi giro ver a paragem dos carros, o sair, o vestir dos casacos de uns e de outros, o adivinhar de birras e resmunguices logo de manhã, a desenvoltura (ou não) com que alguns Pais lidam com isso, as posturas corporais de reação aos beijinhos de despedida, aos últimos acenos... É engraçado como alguns comportamentos de algumas crianças, se explicam melhor depois de observada a forma com são entregues de manhã. De facto, tudo se conjuga em nós, como se o nosso dia (e o dos miúdos também) ficasse marcado pela forma como acordamos e vivemos as primeiras horas.
Este "filme" em perspectiva fez-me fazer um  "rewind" para a minha própria vida... A relação que sempre procurei estabelecer com a escola dos meus filhos (proximidade, cumplicidade), a forma como procurava "entregá-los", a forma como aproveitava esse tempo de ida para lá, os "toques de alvorada" cá de casa, as logísticas dos pequenos-almoços, lancheiras, casacos, recados, assinaturas, dinheiro para as senhas, lembretes para os almoços, etc, etc, etc... Lembrei-me das aventuras de ter de fazer tudo isto sozinha, muitas vezes, quando os horários do meu marido não coincidiam com os meus, da "ginástica" que uma mãe faz para gerir tudo isto e ainda cumprir um horário de trabalho, de chegada à escola dos filhos, de sonos persistentes, de birras, de pequenos-almoços vomitados e depois, a capacidade que tem de ter para "desligar" este interruptor e "ligar" outro, que lhe dá, à mãe, outra forma, a de profissional! De tudo isto me lembrei hoje, da janela, enquanto observava a chegada à escola de dezenas de crianças.
Tive a sorte de ter os meus filhos em Jardins-de-Infância e escolas de primeiro ciclo (o mais novo está agora no 4º ano...) onde podia entrar e muitas vezes, partilhar com as funcionárias e/ou colegas, os suspiros apressados das manhãs, sorrir, mesmo que a correr, acenar de fugida, mas acenar, e sobretudo, olharmo-nos mutuamente uns aos outros! Tive tanta sorte! Pude sempre dar um "lamiré", mesmo que rápido com quem de direito, entregar o "tesouro" por um dia, a alguém que visse de frente, intuir rapidamente, com o olhar, o ambiente que se respirava! Tive mesmo muita, muita sorte! Sei que há escolas diferentes, onde isto não é possível por todas as razões que se conhecem (logísticas brutais de mega centros escolares, onde tudo tem que ser célere e "oleado" de outras formas e onde o contacto com os Pais, terá que se fazer de outra maneira, privilegiando outros "palcos" que não os contactos - ainda que fugazes - da manhã, ou da tarde) e também nessas haverá imensas coisas boas (não contesto!); e sei também que há outras escolas, onde tudo se fazia assim e agora, por motivos que nos transcendem, se passou a fazer de outra forma, interpelando aqueles mais convictos destas realidades e anseios, a inventar novas formas, maneiras diferentes de "respirar o ar"... Tudo bem! Escolas perfeitas nunca haverá, como refiro às vezes, mas não abdico de achar que fui privilegiada por poder dizer, todos os dias, "olhos nos olhos", BOM-DIA, às professoras dos meus filhos!


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

 
 
 
BROTHERHOOD
 
Imagino o nosso cérebro com uma série de ligações diretas, "fiozinhos" aos quais chamamos neurónios que se conectam e fazem interligar as coisas, umas às outras, em frações de segundos. Só isso explica o que nos acontece às vezes que é o estarmos a pensar numa coisa e imediatamente o pensamento "voar" para outra, e outra, e outra... Isso acontece-me muitas vezes nas viagens de carro (como falei num post anterior), onde estou meia anestesiada pela embalagem da velocidade, música, rotina, itinerário, pensamentos e lembro-me disto e logo a seguir daquilo, e daquilo e daquilo...
Hoje tive oportunidade de ter uma conversa com alguém acerca da relação entre irmãos. Gosto muito de conversar, é mesmo uma das minhas coisas prediletas para fazer... ter uma boa conversa, com alguém que nos é querido, com quem temos sintonia de assuntos e interesses, ou mesmo com quem não tem, mas onde se assume a eloquência das ideias, sem arrogâncias ou preconceitos em relação à nossa opinião (e à do outro também...). Considero isso um tempo muito bem gasto e foi o que me aconteceu hoje, neste pedacinho de conversa boa... Ao falar sobre a relação de irmãos, lembrei-me dos meus irmãos e da relação que sempre tivemos!. Acho que pudemos mesmo (e ainda podemos!) praticar ao vivo todas aquelas coisas importantes que dizem os livros e que depois se aplicam mesmo na prática: um "palco" de afetos e conflitos saudáveis que nos fazem crescer!
As minhas recordações mais longínquas da infância, aquela primeira infância da qual já não sabemos se nos lembramos por nós, ou por aquilo que nos foram contando, como se a memória fosse um retalho bem cosido de tudo, são com o meu irmão mais velho, de quem tinha só 22 meses de diferença e que cresceu, por isso, comigo. Infelizmente, sofro agora da irreversibilidade da saudade e da sua ausência permanente, mas ser-lhe-ei eternamente grata por me ter ensinado a ser irmã, por ter brincado comigo, por me fazer hoje, com 40 anos, recordar tantas e tantas e tantas coisas da nossa "velha infância" e sorrir. Transmito a cada um dos meus filhos, sempre, a presença do tio Nuno e tenho a certeza que teria sido (se é que não é, pela lembrança, pelo indelével que passa ao colo da ternura...) um ótimo tio. O Nuno será sempre um irmão que continua a não caber em qualquer post, de qualquer blog, será sempre uma presença tão forte e tão vital na minha vida que o sinto como vivo! 
O meu irmão mais novo, tem de mim 8 anos de diferença, é fisicamente muito parecido comigo e sinto que a nossa sintonia floresceu, naturalmente, com a idade adulta, já que ele era para mim um "bibelot" que eu levava para todo o lado (os meus pais faziam-nos, a mim e ao Nuno, enquadrar o miúdo nos nossos programas!) e a quem tinha que esconder algumas rebeldias da adolescência, senão o "puto" ia contar tudo à mãe e ao pai! Tinha para com ele algum ascendente maternal, ia levá-lo à escola, preparava-lhe o lanche, era a "mascote", quase... é engraçado como alguns amigos do tempo da adolescência se lembram dele, muito loirinho, muito redondinho... A vida empurrou-nos naturalmente para a idade adulta, onde, já "pares", nos mantemos unidos, sempre, sempre!
A relação que sempre tive (e tenho) com os meus dois irmãos, marcou aquilo que sou hoje e tenho a certeza que esteve, talvez insconscientemente, na base do meu desejo (felizmente partilhado pelo meu marido) de ter mais do que um filho. A relação que tive com os meus irmãos proporcionou-me o maior cenário de afetos do mundo, naturais, espontâneos e, sobretudo, verdadeiros. Dizia hoje na "tal" conversa boa, que ser irmão, dá legitimidade para falarmos, para dizermos o que nos vai na alma, para tentarmoss sempre "chegar ao outro", simplesmente porque gostamos dele e esse, será sempre o maior ascendente do mundo! Sei que às vezes não é assim e tenho muitos amigos que são distantes dos irmãos, por vicissitudes da vida, por comodismo, seja pelo que for. Às vezes, a vida corre e nem paramos para pensar, para nos questionarmos... é assim e pronto, mas também sei que aos meus filhos quis dar a maior herança de todas: terem-se uns aos outros!


terça-feira, 20 de novembro de 2012

 
 
TCHI KONG
 
 
Vi hoje publicado no mural de uma amiga do Facebook, uma frase que me chamou a atenção: "É extraordinária a quantidade de barulhos que há dentro do nosso silêncio!", de António Lobo Antunes. Confesso que, apesar de ser uma leitora (muitas vezes) compulsiva, nunca li nada deste autor, a não ser um livro que é uma compilação das cartas de amor que escreveu à sua primeira mulher, aquando da sua comissão de serviço na guerra colonial (D'este viver aqui neste papel descrito, Edições D. Quixote, 2005). Fiquei "apaixonada" pelo autor, pelo estilo que imprimia às suas "escritas de amor" pois vi um jovem recem-casado, médico, vibrante e emotivo que tinha, pela sua mulher, um amor desmedido, dizendo-lhe, "gosto tudo de ti", quando queria dizer que a amava. Os relatos sofridos da guerra e da gestão da distância deliciaram-me (sou uma romântica, pois então...), retratando situações verídicas, o que sempre me encantou, mas, inexplicavelmente, ou não, não me atraíu mais nada do autor que inicio a ler e desisto, porque não "cola"... (deixo isto em "aberto", aberta a novas surpresas literárias, quem sabe?)
 No entanto, achei muita piada à frase acerca dos barulhos que o silêncio tem, pois penso muitas vezes em como é difícil fazer silêncio... se conduzo, oiço música, se cozinho, oiço música, a televisão está ligada muitas vezes sem ninguém a estar a ver, em casa há o barulho de fundo, constante, dos miúdos, no trabalho existe uma "banda sonora" vibrante e contínua que nos acompanha a toda a hora, se vamos beber café "ali ao lado" é comum haver uma televisão ligada com vozes irritantes que gritam, em vez de falar, na rua, há barulhos contínuos e a nossa cabeça, é também um turbilhão de pensamentos, a mil à hora, que não param, programam o momento seguinte, o ingrediente seguinte, o dia seguinte, o diálogo seguinte. E isto, passa-se de forma tão rápida no nosso cérebro, em frações tão milimétricas de segundo, que já nem nos apercebemos! Por isso o silêncio custa tanto, está tão longe dos nossos códigos habituais de conduta.
Consigo fazer, com os meus grupos de crianças, momentinhos pequeninos de silêncio, diários, às vezes esporádicos, espontâneos, nada programados, que servem para "ouvirmos os barulhos da escola, fora da nossa sala"; "o bater do nosso coração"; "a nossa respiração"; "o nosso silêncio"... "- O nosso silêncio tem barulho, Paula?" -"Sim, claro que tem, queres ouvi-lo?" Acaba por ser um pedacinho lúdico e engraçado, que contraria a "maré gigantesca" que se vira sempre contra si. Acham piada, aguentam uns segundos, abrem os olhinhos em batota para espreitar a expressão do colega do lado, semicerram os olhos para fingir envolvimento, embora o sorriso trocista os traia, mas no final, ficaram curiosos com o silêncio...no final, sentiram a respiração a acalmar, o suor a desaparecer, a calma a chegar.
Trabalhei durante dois anos num Jardim-de-Infância no campo, onde dezenas de coisas ao mesmo tempo se conjugavam para um trabalho harmonioso (um dia, faço um post sobre esse lugar... de afetos que ainda hoje perduram!) e onde descobri, por intermédio de um menino delicioso, o momento do TCHI KONG. O tchi kong, segundo ele, era um momento de silêncio que fazia com a mãe no yoga, quando a acompanhava e que "trouxe" para a escola, na hora das novidades. Por brincadeira, começámos a imitá-lo, a introduzir o TCHI KONG todos os dias na nossa rodas das conversas, à tarde, antes da história! Aos bocadinhos, brincando, rindo, experimentando mesmo, conseguiamos já fazer momentinhos de TCHI KONG mais longos, proporcionais à sua capacidade de quietude e tão, tão bons!
Não sei se ouviamos o silêncio, que continuará sempre a ter barulhos, mas sei que era bom ouvir, a meio do dia, o bater do coração, só, sem mais nada!
 


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

 
 
 
 A ROSINHA MAIS BONITA
 
Há oito anos que não trabalho em Faro. Tenho tido a sorte de não ficar colocada longe de casa, o que é muito bom nos dias de hoje e esse fator faz com que as minhas idas e vindas para o trabalho resultem em viagens de 15, 20, ou 25 minutos, conforme a escola de colocação, o que tem resultado em  transformação do tempo de condução em tempinhos de "profilaxia mental", ora de arrumação das ideias, ora de mudanças de registo mental, ora de ouvir música nas rádios preferidas,  ora de ir acompanhando, em flash, as notícias, ora de pôr as conversas telefónicas em dia sem miúdos (filhos...) atrás de mim a gritar : "MÃAAAAAEEEEE!".... Nunca terei para os meus filhos o "dom", às vezes tão conveniente (podia ser só um bocadinho... às vezes... rápido...), da invisibilidade!!
 Tenho a graça (e digo graça, porque acho que é uma sorte...) de mudar COMPLETAMENTE de registo antes e depois do trabalho. As viagens de carro servem para, se for para lá, ir "entrando" na logística de lá; e se vier para casa, para ir "entrando" também na logística de casa, o que me faz "desligar" o interruptor de forma quase total, dentro da medida em que isso é possível. Considero isto uma sorte, de facto, pois com a vida profissional (absorvente!!!) que tenho e também com a vida pessoal ocupadíssima, entre filhos (sempre prioritários!) e outras ocupações extra trabalho, seria muito complicado se trouxesse uns assuntos para "dentro" de outros, quase como se ficasse enredada numa teia elástica de coisas para resolver. Assim, "compartimento" o cérebro, os tempos livres e o que há para fazer, em função das prioridades de tempo! Será uma defesa que o meu organismo arranjou, acredito...
Nestas viagens de carro, nunca muito longas, dou por mim, tantas vezes a imaginar chegar a casa e ter tudo feito: jantar, mesa, compras, cozinha, máquinas de lavar, roupa, lancheiras, mochilas, etc, etc, etc... Imagino a sensação experimentada por algumas amigas do que seria ter uma vida assim: poder ocupar-me só dos meus filhos, tratar com eles dos seus assuntos, ir buscar, ir levar, ficar a ver sem ter de ir ao supermercado pelo meio, estar sempre calma porque sem pressas, ter a casa sempre arrumadinha, enfim, enfim, enfim... nessa mesma viagem de carro, imagino logo a seguir que isso, me tiraria o que hoje tive! E aí vem aquele pensamento, um pouco cliché, mas verdadeiro: "a rosa mais bonita também tem espinhos"!
Cheguei a casa muito cansada... normalmente à segunda-feira isso acontece, é o rescaldo de fins-de-semana que nunca são "pasmacentos", é um final de dia quase interminável com uma série de outras coisas que se seguiram ao trabalho e é um sem número de coisas que há para fazer em casa, a essa hora fatídica, o que, mesmo com muitas ajudas que vou tendo aqui do meu núcleo familiar, se transforma sempre num pensamento... cansativo!!!
O jantar programado até era simples, as miúdas estavam divididas ainda nas atividades, com o pai à sua espera e estava só com o meu filho mais novo que RESOLVEU querer ajudar-me a fazer o jantar! -"Ai não, filho, que levo mais tempo, isto está uma confusão, a mamã sózinha faz mais depressa, vai brincar um bocadinho, blá, blá, blá..." Ele insistiu veementemente (hoje estava para aí virado) e ainda bem... reconheço que às vezes a vida nos mostra pedacinhos de coisas boas assim, destas formas inusitadas, sem estarmos à espera, ou programados para isso. Enchi o peito de ar e intuí (lá está a "amiga" intuição...) que seria bom acolher a sua vontade, mesmo que levasse mais tempo, mesmo que me sujasse tudo, mesmo que tivesse que ir buscar o banco da despensa porque não chega ao balcão e que estava com uma tonelada de coisas em cima, mesmo que não se calasse um segundo, mesmo que não me deixasse ouvir a música que ponho sempre na cozinha enquanto cozinho, mesmo que, mesmo que, mesmo que... Foi tão bom!!! Ficou felicíssimo, com este NADA tão grande, assim que o pai e irmãs chegaram, foi a primeira coisa que lhes disse, eu esqueci-me do cansaço por momentos e vi esta minha "rosinha mais bonita" a encher-me de felicidade, mesmo com os espinhos diários do cansaço!
Agora, já se esqueceu e já voltou às suas diabrices de sempre, já estou outra vez "enredada" em tarefas domésticas para gerir, já me zangeui porque não levantaram a mesa, já chamei toda a gente porque eu e o pai não somos empregados, porque têm de ajudar, porque não sei a que horas vou sair hoje desta cozinha, etc, etc, etc, mas sabem, o cheiro da minha rosinha ainda perdura aqui no ar e então, eu não me importo... por hoje!!!


domingo, 18 de novembro de 2012

 
 
 
 
 
 
A CASA DA MINHA MÃE
 
 A par de todas as outras vezes que lá vou, gosto também de ir, ao domingo, almoçar a casa da minha mãe! Para além de me saber muito bem não ter de fazer o almoço nesse dia (ai cozinha, cozinha que nos absorves, que obrigação mais vitalícia!!!), é uma tradição que quero preservar, que quero incutir aos meus filhos, pois considero que é muito importante, terem vários cenários de afetos verdadeiros, marcantes, recheados de cantinhos cheios de significados diferentes. É quase como se os afetos pudessem (e podem, de facto!) ser vividos em muitos sítios diferentes.
A casa da minha mãe é assim e ela, como está algumas vezes fora, sempre que cá está, é certo e sabido que lá fazemos os almoços de domingo, estendidos também às presenças do meu irmão, cunhada e sobrinho. Sinto a casa dela como uma "zona de conforto" à qual todos recorremos e vamos ter, sempre que possível.
A minha mãe é uma avó jovem que não se encaixa no prototipo da "avozinha que se senta à lareira a fazer renda!" (vai havendo cada vez menos avós assim...) A minha mãe nunca soube fazer renda, aliás, era avessa às costuras e lavores e foi a minha saudosa e doce avó materna (a avó Lurdes) que tentou, afincadamente, ensinar-me essas virtudes. Eu, canhota em tudo o que fazia, dificultei-lhe o ensino, pois fazia tudo ao contrário, do lado errado, começando pelo fim, o que a aborrecia e impacientava e isso, aliado à minha muito pouca vontade de aprender tais lides, à minha irrequietude e rebeldia, se mostrou muito conveniente para mim... Era o pior que me podiam pedir...
A minha mãe encaixa-se no prototipo de avó disponível e cheia de ensinamentos para dar aos netos, apesar de ter (e muito bem!) uma vida própria... é tão bom quando temos vida própria e mesmo assim todos os nossos amores se encaixam lá... Acho muito engraçada a relação dela com os meus filhos, cada um deles, respeitando os seus diferentes feitios, acho piada ao gosto que eles têm (mesmo as miúdas, que são mais velhas!) em ouvir as histórias que ela conta da sua infância, num hemisfério sul tão distante, tão quente, tão exótico e tão cheio de episódios que lhes soam, agora, a caricatos!
A casa da minha mãe tem muitas fotografias. É engraçado, pois acho que herdei dela o gosto de ter fotografias (muitas!) espalhadas pela casa. Acho que dá um "ar de lar", é quase como se esses flashes de memória nos fizessem sorrir continuamente... na casa da minha mãe já não vive o meu irmão mais velho, nem o meu pai, que serão sempre redutos sagrados da minha vida, outros meus amores mais profundos e autênticos, transformados agora numa lembrança suave e numa saudade que não tem fim; mas na casa da minha mãe eles estão, nos cantinhos, nas conversas, no ar que se respira e isso é tão autêntico, tão bom e tão estruturante para quem está a crescer!
Todos precisamos de raízes, todos precisamos de uma história, num tempo, num espaço, com pessoas que se revelaram importantes para nós, com personagens que ainda vivem ao nosso lado e que têm tanto para nos contar!
É assim, a casa da minha mãe... mesmo moderna e cheia de novas tecnologias, mesmo agitada, porque enche connosco, que somos muitos, mesmo informal, porque espontânea e prática... é cheia daquilo que é mais importante: afeto, raízes e história! E é exatamente isso que quero passar aos meus filhos!
 

sábado, 17 de novembro de 2012

 
 
 
 
PAREDES MÁGICAS
 
 
 
Gosto de pensar que somos uma construção, com "pedrinhas" daqui e dali, características dos sítios por onde vamos passando e estando, uma panóplia e coleção de cheiros, lembranças, decisões, afetos... Gosto de pensar que guardamos em nós pedacinhos (milhares...) de coisas importantes que tranformamos em comportamentos e atitudes. Por isso, considero tão importantes as experiências positivas que vamos tendo e as negativas também, se analisadas numa perspetiva de revisão e oportunidade de crescimento.
Por tudo isto, sinto hoje um apelo para fazer um tributo a um sítio mágico, onde trabalhei durante nove anos... mágico, porque me deixou crescer profissionalmente; mágico, porque me permitiu trabalhar com uma amiga pessoal de há muito e depois colega também de trabalho (o que tornou tudo muito mais fácil e espontâneo); mágico, porque me fez conhecer outras "pedrinhas", que se transformaram também em afetos e ligações para a vida; mágico, porque me fez sentir valorizada, pessoal e profissionalmente, adquirindo hábitos de trabalho e metodologias que ainda hoje sigo; mágico, porque me conheceu aquando do nascimento dos meus três filhos, percebendo e enquadrando todas as inquietudes de uma jovem  mãe... mágico, porque continua a existir e a deixar marcas positivas em tanta gente.
É um Jardim-de-Infância pequenino, só com duas salas, mas muito acolhedor. Respira-se naquela casa uma atmosfera familiar, muito própria, adocicada com o trabalho de uma equipa que, não sendo grande em número, é de muita qualidade. Conheço a maioria das funcionárias e também as duas Educadoras de Infância, colegas com quem me identifico muito, quer a nível pessoal, quer a nível profissional. Sei que naquela casa, se trabalha em prol da Educação Pré-Escolar, MESMO, enaltecendo-a, e tornando-a tão importante, como cada um dos meninos e meninas que lá passam o dia.
Esta casinha mágica provavelmente viverá os seus problemas e provavelmente não é perfeita e sabem?...ainda bem! A perfeição tirar-lhe-ia, certamente, o encanto! Os sítios perfeitos não existem, existem simplesmente sítios que se encaixam melhor, ou pior nas nossas aspirações, anseios, expetativas!
Foi o que aconteceu comigo e com esta casinha mágica... entendemo-nos sempre muito bem, numa relação equilibrada e transparente, daquelas onde se fala, diz-se o que não se concorda, se conversa, opina, pergunta e cresce. Acredito que um bocadinho daquilo que sou hoje, a nível profissional, se deve a tudo o que vivi naquelas paredes mágicas, povoadas de histórias giras para contar!
O sorriso que aparece espontâneo, sempre que por lá passo, sempre que de lá falo, será a prova provada daquilo que conversei hoje com uma amiga que me questionava acerca do sítio onde pôr a filha... -"as paredes são mágicas?"- perguntei -  "Tem atenção às escolas de revista, lindas de morrer, mas vazias do mais importante... será sempre melhor absorveres o ar que se respira, pensares que, às vezes, o que dá mais no olho, não é tudo!"
Penso que ela percebeu a "dica" e ainda bem...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

 
 
 
 
 
A MENINA DOS SEUS OLHOS
 
 
 
Pela primeira vez em muitos anos de serviço, tenho na minha sala uma criança de etnia cigana. Não aquele cigano já algo "aculturado", onde se percebem alguns traços, já disfarçados por aculturações sucessivas, mas aquele cigano muito marcado, quase "puro", diria (com cheiro a fumo e tal e tal...).
Esta menina tem sido mote para algumas reflexões em "flash", como costumo dizer, porque apressadas e paralelas às mil e uma tarefas diferentes que executamos diariamente. Já serviu para me questionar interiormente sobre o fenómeno da inclusão, tal como nos é pedido, já serviu para recordar muitos e muitos aspectos alusivos a este povo (que tive oportunidade de aprender na disciplina de Antropologia Cultural, do 10º ano do liceu, em que fizemos um trabalho, durante o ano sobre os ciganos e tivemos oportunidade de visitar repetidas e demoradas vezes um acampamento próximo da escola); já serviu de mote tantas e tantas vezes perante o grupo, para explorar conversas e temáticas sobre o sermos "todos diferentes, todos iguais", sobre a "aceitação" e tolerância; já serviu para me eternecer com os seus Pais, ambos pouco mais velhos que a minha filha mais velha (a mãe, em especial, é linda e muito simpática, tem uma cara e sorrisos maravilhosos e conquistou-me pela simpatia ingénua que denota... será que intuíu que a qualidade que mais admiro nas pessoas é a simpatia???!); enfim, a minha doce "moreninha" (chamemos-lhe assim...) tem sido um "diamante em bruto" que me tem obrigado a ajustar-me às suas realidades, para a poder, da melhor forma, integrar num grupo de meninos tão diferentes de si, tão exigentes e, às vezes, tão... rudes para ela.
A minha moreninha é vaidosa, vem sempre muito coquette e limpinha, (ao contrário do que se poderia inicialmente supor e ao contrário de outros meninos ciganos lá da escola) é curiosa e muito voluntariosa. O único problema é que é tudo tão novo, tão novo, tão novo para ela, que a defesa quer arranja é estar sempre, sempre, sempre, sempre (até à exaustão) a perguntar aquilo que já sabe: "é para fazer isto, professora?; "agora vou para ali, professora?"; "queres que eu pinte? com as minhas canetas?"... Já tentei que me chame Paula (gosto mais que me chamem Paula), mas ela não consegue... intuo que seja para seus Pais, e por consequência para ela, por imitação, um tratamento mais reverencial, mais respeitoso!!! Aceito... Reinicio as minhas tentativas sucessivas de integrá-la, e os meus apelos sucessivos à "santa paciência", para que, mesmo no tom já exasperado ("o que é, querida???"), perceba ternura! Afinal, é disso que todos os meninos, iguais e diferentes precisam.
Hoje, a minha moreninha andava atrás de mim (é a nossa sombra!) a repetir-me qualquer coisa que não percebia. Eu, ocupada, (quem não está com 25 meninos sôfregos, sempre me movimento?) tentava perceber o que dizia, mas às tantas, intuí que precisava parar, debruçar-me sobre ela, fixar-me naqueles dois lagos pretos, que são os seus olhos (infelizmente tortos, mas encantadores na mesma, como se o brilho, indiferente ao resto, trespassasse para fora) e perguntar-lhe: "diz, princesa, o que queres?" A minha moreninha, repetiu-me aquilo que vinha dizendo, teimosamente, há minutos... "sabes professora, o meu pai dizeu-me que eu sou a menina dos olhos dele"...
Senti-me abençoada por ouvir aquilo... afinal, apesar de tudo, somos MESMO todos iguais!!!
 
 


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

 
 
 
MODO "OURIÇO-CAIXEIRO":
 
 
(para todas as colegas que têm a "profissão mais doce do mundo"...)
 
Tenho uma profissão que me permite sentar no chão com uma série de meninos e falar com eles... sempre gostei dos momentos de "roda", "tapete", "reunião", "conversa"... considero-os cruciais em Jardim-de-Infância, para se ouvirem as novidades, para se cantar, para se estruturar o dia, para se fazer o balanço do que foi feito, para se ouvir uma história, para se aprender a ouvir o OUTRO, para se sentir o grupo como nosso, de todos. Penso que todas as minhas (muitas!!!) colegas Educadoras de Infância concordarão comigo, independentemente do peso que dão a esse momento diário e rotineiro em Jardim-de-Infância. Eu, pessoalmente, dou-lhe MUITA importância. É mesmo, dos meus momentos preferidos e sinto-me abençoada quando consigo rir, genuinamente, daquilo que me dizem, ou quando consigo ver nos seus olhinhos o gosto que estão a ter naquilo que se diz/partilha/conversa...Independentemente das dificuldades de grupos cada vez menos concentrados, mais dispersos e diferentes emocionalmente, continua a ser um momento delicioso!
Hoje, de "rabo no chão", juntinhos numa rodinha, com o céu enevoada lá fora, com o barulho da chuva a cair (ainda consegue haver algum sossego e é tão bom!!!) contei-lhes a história do Ouriço Caixeiro! Completamente inventada, sem livro ou outro suporte visual, só com voz, gesto, expressão, fantasia, improviso... O Ouriço estava tão fechado, tão fechado, tão fechado que parecia uma pedra dura e espinhosa. Os bichinhos vizinhos nem se atreviam a aproximar-se, porque aqueles espinhos pareciam-lhes muito maus, até que resolveram fazer-lhe cócegas com uma folha de Outono sequinha, que encontraram por ali... As primeiras cócegas não resultaram, as segundas também não, mas as seguintes, certeiras, porque perto do nariz, fizeram-no começar a estremecer e a deixar-se descobrir num gigantesco espirro!!! Todos se afastaram apavorados, mas ficaram à espreita: afinal o Ouriço era engraçado, redondinho e com ar simpático.... afinal, podiam ser amigos e ele até lhes explicou porquê que, de vez em quando, se enrolava em "conchinha fechada" e só deixava os piquinhos de fora!
Enquanto lhes contava a história, os recantos do meu cérebro iam saltitando pelos seus olhares e sorrisos (que bom, que bom!!!) e aqueles recantos aos quais chamamos às vezes subconsciente, iam-me dizendo que estou/estamos (?) tantas vezes em "modo Ouriço-Caixeiro"... só com os picos de fora, fechadinhos, fechadinhos, em bolinha redondinha e compacta! Esses mesmos recantos do cérebro, mostravam-me com muita clareza quais os "bichinhos" que, às vezes, me tentam despertar dessa anestesia teimosa e em modo perspectiva, agradeci-lhes de coração o "espirro" que às tantas, pela sua insistência, também dou!
 
Apeteceu-me dizer aos "meus meninos" que, também eu sou um Ouriço, às vezes (muitas vezes...), mas preferi deixá-los com aquele brilho nos olhos que só as histórias e o faz-de-conta dão!
 

 
 
 
 
Querida Kitty:
 
 
A propósito do post da Leonor Costa, onde referiu que este blog lhe fez lembrar o seu antigo diário, lembrei-me da experiência que tive (e certamentente partilhada com muita gente - especialmente raparigas - da minha geração) em ter um diário. Calculo que essa "transferência e testemunho" de emoções se farão agora de outras formas: virtuais, digitais, ou outras, mas o caderninho outrora fechado, com um cadeado pequenino e uma chave também pequenina, guardada num sítio escondido e secreto, serão sempre inimitáveis!
 Que experiência maravilhosa, a de ter um diário! O pensar em chegar a casa e transcrever para o papel tudo o que se tinha vivido, os amores e desamores, os dramas e pieguices, as valentias e ufanices próprias da idade infantil, ou adolescente, o gostar de relê-lo depois, mais tarde, o gozo e riso fácil provocados por um sentimento posterior de nostalgia, ridículo, ou patetice acerca do que se escreveu e sobretudo, o prazer da escrita, transformado em catarse expressa para o papel, através de uma caneta esforçada em acompanhar pensamentos velozes, às vezes muito velozes.
Sugeri veementemente às minhas filhas (ao mais novo, a sugestão virá mais tarde...), de forma quase de "sugestão imposta", que lessem o diário de Anne Frank. Li este livro (a versão mais antiga e original, já que agora há outras, mais resumidas) quando era adolescente e marcou-me muito. Talvez tenha sido o meu primeiro contacto "de frente" com a realidade do Holocausto, contada na primeira pessoa. Acho que os grandes clássicos da literatura serão sempre intemporais e, como alguns nomes, não passam de moda, pelo simples facto de que retratam cenas da vida humana, densas e laboriosas em termos de intensidade, humanidade, drama e mensagem, uma mensagem que fica e que marcará depois os nossos códigos literários. A par dessa sugestão literária, já vieram outras, de outros clássicos, que acho, contribuirão para enriquecer os seus horizontes e a sua forma de verem a vida. Um livro marcante, na idade e tempo certos, será determinante, não só para o gosto pela leitura, como também, muitas vezes, para a forma como vemos a vida, já que essa leitura, nos transportará para "mundos" exteriores a nós e isso é crucial para crescer...
Ora, quem leu a Anne Frank e quem se eterneceu com o tratamento que dava ao seu diário, chamando-lhe carinhosamente, Querida Kitty, perceberá a mensagem maravilhosa que nos é dada acerca da condição humana, que se reinventa e redescobre em situações de extremo drama e desespero. A forma como uma família se reinventou numa dessas situações, a gestão dos conflitos entre vários seres humanos, confinados a um espaço quase claustrofóbico, a relação entre duas irmãs entre si e com seus Pais, mas sobretudo a forma como uma jovem maravilhosa se "agarrou" à escrita para sobreviver (durante algum tempo) à monstruosidade do Holocausto, traduzindo e tentando perceber as suas emoções e transpostando para "a Kitty", a ternura que se entrega à "melhor amiga"...
Nunca poderei comparar as minhas experiências de vida mais dolorosas, àquilo que Anne Frank viveu (e os livros auto-biográficos dão-nos o peso da verdade, contextualizada e precisa), mas poderei comparar-me com ela na relação que tinha com a escrita, "enchendo-a" de emoções. Este meu blog, muito despretensiosamente, pretenderá fazer aquilo que seu pai, Otto Frank, fez: levar a sua escrita de alma pelo  mundo, transportando-nos também a nós, para partilhas com os outros. Com isso, ficaremos sempre muito mais ricos.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

 
 
BAIRRO DA CAVALINHA
 
Não tenho dúvidas absolutamente nenhumas que a infância cria matrizes na personalidade das pessoas que virão a determinar o que elaS serão no futuro... Este assunto "é a minha dama", pois está relacionado com tudo o que acredito em termos profissionais e também com a importância que atribuo a uma faixa etária que não pode ser considerada só como a "queridinha"... (sim, na INFÂNCIA os "meninos são tão queridos, tão pequeninos, tão fofinhos"... que a tentação, às vezes é não levá-los muito a sério... Ora, é na infância que os "imputs" mais importantes ficam impressos de forma vitalícia!). Por isto, dou tanta importância àquilo que faço, à relação que estabeleço com os Pais dos "meus" meninos, à necessidade que sinto de que percebam o meu trabalho, o saibam contextualizar, às dúvidas que têm, enfim, à necessidade de que o percebam esclarecidamente. Isto não invalida que haja exceções, distanciamentos e dificuldades com algumas pessoas, opiniões pré-definidas, colegas com quem não me identifico, etc, etc, etc... Mas quanto a isso, sem dramas! A vida é mesmo assim e já não tenho a ingenuidade de "querer mudar o mundo".
Isto veio-me à cabeça hoje, depois de ler o comentário que uma amiga de infância fez a um dos meus posts, em que se refere à minha/nossa infância comum, à forma como passávamos o tempo, às brincadeiras que tínhamos... Tenho a certeza absoluta que isto que vou dizer é comum a tanta e tanta gente da minha geração, tornando-as pessoas felizes e equilibradas e é por isso que não assumo esta reflexão como um exclusivo individual, mas é uma partilha de opinião acerca de algo que considero ter sido crucial para eu ser hoje a pessoa que sou!!!
A par de uma família feliz e equilibrada (matriz essencial para ter hoje uma noção de família como a que tenho!), onde vivia também uma avó materna muito doce e sempre presente, com uns Pais absolutamente decisivos para aquilo em que me tornei, com dois irmãos com quem podia experimentar o genuiníssimo amor e conflitos próprios de irmãos; pude BRINCAR!!! Pude andar na rua, pude lanchar sentada à soleira da porta, acompanhada de uma série de amigos do bairro, pude fazer "os deveres" (como dizíamos) a correr para ir para a casa da amiga vizinha, que era enorme (o tal "parque infantil" de que ela fala no comentário...), pude acompanhar a avó numa série de tarefas que ela tinha, pude voltar para casa e comer outra vez pão com marmelada que a avó tinha feito, pude, pude, pude. NAQUELE MEU BAIRRO DE INFÂNCIA, TUDO ACONTECIA..... Sei que a vida não é igual e esta nostalgia serve só para adocicar a recordação e nunca para a querer trazer de volta, pois assim, tornar-me-ia reaccionária e estaria fechada a tanta e tanta coisa boa que esta vida de agora também tem, mas posso recordar e querer, hoje, fazer "pedacinhos disto", mesmo que de outras formas reinventadas, mesmo que com outras logísticas, pressas e imediatismos... Posso dizer aos Pais dos "meus" meninos que não os "entupam" de atividades, que os deixem BRINCAR, que lhes contem histórias, que os deixem estar com os irmãos, que os levem a passear, que os deixem ter amigos fora da escola, à casa de quem possam ir, de vez em quando, dormir...
Assim, reinventaremos os nossos bairros de infância, criando pedaços de espaços e sítios mágicos, com gente também mágica, onde possamos estar!
E então, Ana, também concordo contigo quando dizes que  há "amizades que perduram" para além do tempo e que às vezes até são reavivadas por uma rede social que agora une as pessoas na distância, mas sabes, acredito que a nossa amizade teve um selo essencial: o da inocência das brincadeiras das crianças que tiveram... tempo!
 
 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


 
 
 
"Porque é para vocês!!!"
 
 
Agora que me meti nesta aventura deliciosa, sinto mesmo que a escrita serve de catarse para revisão e reflexão sobre o dia, sobre alguma coisa que me faz pensar, sobre o preenchimento de tempos mais mortos, sobre brincadeiras com as palavras, sobre o poder de transformar aquilo que penso, pensei, digo, ou disse, em palavras, em texto... gosto mesmo muito e se aliarmos isso a uma partilha sempre pronta com os amigos (mesmo que de modo virtual, porque não, não nos fechemos a ele, que é irreversível!...), ainda melhor se torna tudo isto!!
E hoje eu poderia escrever sobre inúmeras coisas que afloraram o meu espírito ao longo do dia, pequenos flashes que povoaram o meu consciente e subconsciente de forma mais, ou menos sentida... poderia falar da conversa que tive com um amigo querido, de longa data, com quem há muito não falava e do bem que me soube ouvi-lo; poderia falar do apaziguar de quezílias entre pessoas queridas, que me fez ver que o perdão tranquiliza, sereniza, é terapêutico; poderia falar da menina cigana que tenho na minha sala que me faz questionar constantemente a INCLUSÃO tal como no-la querem fazer defender; poderia falar na "suavidade" da aceitação da morte de um familiar querido, por parte de uma amiga; poderia falar de um sem número de coisas e todas elas, circunstâncias só DE 1 DIA, que foi o de hoje! (De facto, há tanto num só dia!!!)
Mas não... hoje apetece-me falar das minhas duas filhas outra vez... de facto, os filhos serão sempre fontes grandes de inspiração, cenários gigantescos de afetos que se podem transformar em palavras e reflexões. Com este post, aproveito para explicar o porquê do nome DOCE E AGRIDOCE para este blog!
-"Oh mãe, mas porquê que escolheste este nome para o blog?" -foi a pergunta desta manhã aquando da conversa rápida no café antes da "entrega" à escola... - "É por vossa causa..." - e aí começou uma explicação que não sei se lhes terá feito algum sentido (os adolescentes riem de tudo e às vezes apetece-nos questionar o riso, traduzi-lo, embora não me tenha detido nesse apelo... fixei-me no riso... incongruente, espero!)
A minha amiga Maria João (e o facto de referir aqui o seu nome serve de homenagem não só à nossa amizade, mas também à felicidade desta expressão) disse-me um dia que eu tinha uma filha "doce" e outra, "agridoce"! Apaixonei-me pela expressão, porque é absolutamente verdadeira!  A minha filha mais velha é a doçura calma, ponderada, responsável, metódica, organizada ... a minha filha do meio é a doçura agridoce da extroversão, rapidez, intempestividade, impulsividade, espiríto artístico... são tão diferentes e revejo-me tanto em cada uma delas. Conseguem, fisicamente, ter o pai retratado dos pés, à cabeça, mas no resto, têm pedacinhos de mim, que vejo com tanta clareza, ora numa, ora noutra! É engraçado como a genética fluí assim, por esta subtileza e se divide desta forma!
E assim será este blog, espero! Ora doce, ora agridoce, falando da vida e das coisas simples que nos fazem deter e parar por milésimos de segundo da correria em que, muitas vezes involuntariamente, vamos vivendo.... e para o meu filho mais novo, que, ao contrário das irmãs, é fisicamente muito parecido comigo, tantos e tantos posts virão também, com a força da inspiração que só um SOL também dá...
 
 

domingo, 11 de novembro de 2012

MÃE E.T (leia-se "extra-terrestre"), ou MÃE NORMAL?





MÃE E.T. (leia-se "extra-terrestre"), ou MÃE NORMAL?

Cada vez tenho menos paciência para centros comerciais cheios de gente e confusão, aliás, cada vez tenho menos paciência para compras com muita gente atrás de mim. Até as minhas idas ao supermercado (necessidade quase diária, dada a família numerosa que tenho... às vezes penso que o supermercado onde vou, podia quase ser apelidado de "minha despensa!!! Se calhar é por isso que algumas empregadas sorriem para mim com um ar cúmplice... acho que já me conhecem!!!.)
 Tenho duas filhas adolescentes, que ADORAM esses programas, como penso ser normal para a sua idade e às vezes, a sério que me sinto um bocadinho "culpada" por não ter paciência, por não conseguir ADORAR esses programas, como se calhar elas gostariam que eu ADORASSE! Gosto de ir às compras sozinha, com tempo, vendo, entrando e saindo à minha vontade, sem pressas, sem tempos infinitos dentro de uma loja, super climatizada (e normalmente com um ar super quente!) que me põe mal disposta, com empregadas que vêm logo ter connosco, super solícitas,  a perguntar se precisamos de ajuda, a anunciar não sei quantos descontos e promoções. Oh céus, não tenho paciência!!! Será porque estou mais velha? Talvez! Talvez sinta a necessidade de rentabilizar o tempo noutras coisas, ler um bom livro, por exemplo, é um programa supersónico para mim... eu e a leitura, sozinhos!!! Haverá melhor? Ou a beber um café, lendo a minha revista preferida? Hum!!!! Ou a ouvir música, pondo mails em dia (de trabalho, ou não...), escrevendo nos meus caderninhos pretos (companheiros de sempre nas minhas malas...), estruturando tarefas familiares, pessoais e outras... Acreditem que se rentabiliza muito tempo assim, aproveitando esses bocadinhos que parecem "mortos".
Não me sinto um ET por isto... gosto de assumir as "posturas consumistas" adequadas à minha bolsa, tenho as "coqueteries" próprias de uma mulher normal (acho eu!!!), gosto de partilhar gostos e opiniões com as minhas filhas, mas não me convidem a passar horas dentro de um centro comercial a experimentar 30 coisas, a tentar perceber como é possível que a minha filha mais velha não goste de nada que experimenta (mesmo que sejam tantas e tantas coisas... Claro que percebo, já passei pela idade dela!!!), ai não, isso não!
Sei que elas me vão arrumar muito bem nas suas cabecinhas e vão sabendo já que a mãe "alinha", desde que não se sinta pressionada, e só quando sente que será boa companhia (não será esta a base do respeito e da convivência entre as pessoas?)... às vezes, opto por ficar a comer um "llaollao" (passo a publicidade, mas que coisa maravilhosa!!!!), num cantinho, enquanto elas andam por ali, vendo, revendo e experimentando. Quando se decidem (respeitando os seus ritmos super, hiper, mega difíceis!!!!!), então aí sim, a mãe vai ver e dá opinião e ajuda e até compra, se for possível!!! 
É tudo muito mais prático assim, mais rápido, eficaz e a vida está para coisas práticas, que não compliquem! E a mãe, sim a mãe está TÃO PRESENTE nas suas vidas em tudo, em tantos momentos, em tantas decisões e opiniões, em tantas dúvidas e certezas, em tantos fellings que lhes adivinham as dúvidas, ainda antes de elas as sentirem, em tanta, tanta, tanta coisa, que acho que não fará mal se nesta área as acompanhar mais "à distância!"

E posto isto, boas compras...... 

Vale sempre a pena!


São imagens como esta que me fazem pensar que continua a valer a pena, que aquele sol que está lá ao fundo a pôr-se, nascerá de novo amanhã, de forma absolutamente gratuita!!!




sábado, 10 de novembro de 2012

Inicio de aventura...




Depois da insistência de alguns amigos, decidi-me a iniciar esta aventura de ter um blog!!!! Será que vai ser bom? Será que vou ter tempo? Será que vai ser produtivo? Vamos ver....
O mais difícil vai ser o "ter tempo" para "alimentar" esta ideia e foi isso que, durante muito tempo, me afastou da decisão de começar, mas agora resolvi-me... Não faço ideia de qual vai ser a periodicidade de acesso, se diária, se semanal, mas pronto, vou tentar, ainda com uso insipiente, às apalpadelas a experimentar as ferramentas e definições, mas penso que conseguirei!!!
As pessoas que me rodeiam diariamente, poderão servir de fonte de inspiração, quem sabe, nos mais diversos assuntos e temáticas. Pretenderá, pois, ser quase um registo de "crónicas", opiniões, comentários, reflexões.....
DESEJEM-ME SORTE!!!!!!

DOSSIERS ... À medida que vou fechando dossiers , vou registando sinapses cerebrais que me alertam para o quase, quase, quase que est...